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Marcio GIMENES de PAULA: Reseña sobre "El idealismo de Kierkegaard", de María J. Binetti 

RESENHA
Binetti, María J. El idealismo de Kierkegaard, Universidad Iberoamericana, Ciudad de Mexico, 2015
Marcio Gimenes de Paula
Professor Universidade de Brasília
 
Maria José Binetti, pesquisadora argentina, seguindo a trilha dos maiores especialistas em Kierkegaard, traz para a América Latina – em parceria com os colegas mexicanos – um estudo que, a meu ver, será de importância singular no âmbito das investigações sobre o pensador dinamarqués em nosso continente. Penso que aqui já temos o primeiro grande mérito do seu
trabalho. Tal atitude é fruto do seu compromisso de diálogo acadêmico, já firmado há alguns anos, com centros de investigação como Kierkegaard Hong Library – St. Olaf College (Estados Unidos), bem como com o S.Kierkegaard Research Centre (Dinamarca).
Na interpretação de nossa colega sulamericana, seguindo a esteira do já renomado pesquisador norte-americano Jon Stewart, e ao contrário do que uma dada tradição nos parece haver legado, Kierkegaard é um pensador que se encontra bem no cerne do idealismo e suas discussões e, nesse sentido, pode ser tomado como um pensador idealista. Por isso, sua tese afirma categoricamente que o pensador de Copenhague não apenas é um pensador idealista, mas que seu idealismo parte de uma dada metafísica absoluta. Por isso, parece exemplar a definição que ela mesma nos fornece nas primeiras páginas do seu primeiro capitulo sobre a caracterização básica do idealismo (Sinzarones y razones del idealismo hegeliano):
 
Do ponto de vista histórico, o idealismo se apresenta como um projeto libertário de cunho metafísico, inspirado na atmosfera política da Revolução francesa e gestado em dois grandes epicentros: O Seminário Teológico de Tübingen (1788-1793), onde se formaram F.Schelling, F. Holderlin y F. Hegel; e o Ateneu de Iena (1798-1800), fundado pelos irmãos Schlegel, e visitado entre outros por F. Schleiermacher, Novalis, J.L.Tieck e F.
Sche l l i n g . To d o s e s s e s autor e s compartilharam o interesse pelas Lições de J.G.Fichte em Iena (1794-1799) e a simpatia por Espinosa. (BINETTI, 2015: 15- tradução minha)
 
Em outras palavras, o idealismo possui uma parte política, uma forte herança protestante e um antecedente que remonta a Espinosa. Se observarmos com cuidado esse será exatamente o quadro que teremos diante dos olhos aos estudarmos os póshegelianos.
De igual modo, mas também como fruto de sua época, podemos verificar aqui as sementes já lançadas pela clássica interpretação de Karl Löwith no seu De Hegel a Nietzsche, ainda que Binetti apresente suas discordâncias pontuais em relação a ele.
Assim, com extrema audácia e coragem para romper com preconceitos, Binetti afirma o quanto é descabida, a tese tradicional sobre Kierkegaard que tende a tomá-lo como uma espécie de autor antihegeliano de modo extremamente banal:
 
Apesar da vacuidade de sua polémica contra a filosofia hegeliana, moderna e especulativa em geral, e ainda apesar de que o próprio Kierkegaard alguma vez se tenha reconhecido hegeliano, o certo é que a imagem de um Kierkegaard anti-idealista e anti-hegeliano dominou a história da filosofia contemporânea e se instituiu como
um dos seus lugares mais comuns. (BINETTI, 2015: 21- tradução minha)
 
Desse modo, a tese de Binetti, seguindo já os passos de Jon Stewart no seu Kierkegaard´s relations to Hegel reconsidered, é instigante na medida em que nos impulsiona a pensar Kierkegaard não de modo estático e acabado, mas a compreendê-lo como um pensador do seu tempo, como um idealista e até mesmo como um hegeliano. O que talvez pode variar – e certamente será muito rico. Além, é claro, de perguntar-se que tipo de idealismo ou hegelianismo ele parecia trazer no bojo de sua reflexão filosófica. Assim, ao romper com um antihegelianismo
dado como certo do pensador de Copenhague, Binetti problematiza o autor e seus temas, o que é bastante fecundo na discussão filosófica, isto é, pensar com o autor e, se for o caso, pensar mesmo contra ele. Por isso, nossa colega não se omite quando deve criticar Kierkegaard e o faz de forma contundente quando julga que ele se equivocou, por exemplo, ao ver em Hegel um final da história e um fechamento do sistema:
 
Nesse sentido não é possível atribuir a Hegel um fim da história, nem um fechamento definitivo do sistema, tal como Kierkegaard o faz... (BINETTI, 2015: 27- tradução minha).
 
Assim, no seu entender, o tema do singular e da dialética, que muitos tomam como uma invenção do autor dinamarquês, se constituem em provas da influencia hegeliana e idealista no pensamento kierkegaardiano e devem ser tomados dentro de um quadro crítico amplo, o que não significa diminuir o mérito de sua abordagem filosófica.
No capítulo segundo, Binetti faz uma profunda investigação sobre o tema do romantismo depois do romantismo. Em outras palavras, avalia dois aspectos da história da filosofia fundamentais para compreender o romantismo, a saber, a herança espinosana e o traço da fé.
Seguindo a mesma lógica desenvolvida na definição do que seria um pensador idealista, a autora vê em Kierkegaard uma dubiedade, talvez como igualmente podemos vê-la diante do hegelianismo do autor dinamarquês frente ao romantismo. Contudo, isso é muito mais forte, ou seja, a dubiedade diante do romantismo na verdade só ocorre por conta da dubiedade
kierkegaardiana diante do hegelianismo. Aliás, o próprio romantismo carrega no seu corpo tal traço, isto é, ele mescla elementos de um espinosismo com aspectos constituintes e centrais da fé cristã. Aqui reside aquilo que os alemães chamavam de Bildung e Binetti a explicita com muita clareza ao avaliar o tema do romantismo na obra de Kierkegaard:
 
Alguns autores tem entendido que Kierkegaard superou a irreligiosidade e a imoralidade românticas em virtude seu apriori cristão. Nossa opinião, pelo contrário, é que precisamente em virtude do seu apriori cristão, Kierkegaard se converteu em um pensador romântico, uma vez que poetizava seu inalcançável ideal cristão. O cristianismo de Kierkegaard não é uma doutrina, nem uma comunicação direta, nem uma dogmática, sim ‘uma
comunicação de existência’, uma potencialização da subjetividade, cujo esgotamento reflexivo produz a fé como
unidade dialética do divino. A fé kierkegaardiana é paixão e onde há paixão e fé há romantismo. Por isso, entendemos que Kierkegaard é romântico na sua mesma concepção cristã, nesse esforço renovador e liberador da consciência cristã, que repete o absoluto da idealidade romântica e o consuma como reduplicação amorosa.
(BINETTI, 2015: 63- tradução minha)
 
Entretanto, é bem verdade que, nesse mesmo capítulo, nossa colega, sabedora das teses de Kierkegaard no Conceito de ironia, apresenta claramente que, em alguns momentos, mesmo com o seu romantismo, o autor dinamarquês parece se postar ao lado de Hegel contra determinadas teses românticas. Tal coisa no seu entender, não afeta a posição romântica de Kierkegaard, mas a coloca dentro de um amplo quadro de entendimento, a saber, a herança que o próprio romantismo recebe de Hegel e trabalha criticamente.
No capítulo terceiro, que é o de maior fôlego da obra e certamente envolve um domínio de boa parte da reflexão hegeliana, Binetti nos apresenta, com extrema competência discussões bastante centrais do hegelianismo, buscando compreender como Kiekegaard está posicionado dentro de tal contexto. Por isso, explora aqui novamente o tema de Hegel em oposição aos românticos mas, ao contrário de uma leitura mais previsível e comum, apresenta também uma tese muito instigante e que vale a pena investigar: a possibilidade de que não apenas Kierkegaard pode ser tomado num dado sentido como pensador romântico, mas que o mesmo
também ocorre com Hegel. Sua interpretação é claramente tributária das teses de Jon Stewart e, nesse sentido, coloca-se em clara oposição às teses de Niels Thulstrup que, na sua clássica obra Kierkegaard´s relation to Hegel, defende peremptoriamente a tese de que Hegel e Kierkegaard são pensadores absolutamente distintos. Binetti, juntamente com Stewart, contesta tal tese com energia. A fim de melhor fundamentar sua argumentação, a autora baseia-se num tríplice divisão da obra kierkegaardiana proposta por Stewart. Segundo tal cronologia, a primeira parte da produção iria de 1834 a 1843, sendo tal período tomado como um período de recepção
positiva da obra de Hegel. Aqui situam-se, por exemplo, obras importantes de Kierkegaard como Conceito de ironia, Ou Ou e Temor e Tremor. O segundo período iria de 1843 a 1846 e aqui percebemos claramente um confronto do idealismo de Kierkegaard com o hegelianismo dinamarquês de sua época. Aqui entra uma forte acentuação da tese de que, quando Kierkegaard criticava fortemente Hegel (ou parecia criticar), no fundo criticava ao hegelianismo dinamarqués que já era, por sua vez, uma degeneração do que havia escrito o próprio filósofo alemão. Por fim, a terceira e última fase vai de 1847 a 1855. Aqui Kierkegaard parece voltar à filosofia hegeliana que havia sido tão criticada por ele próprio e que parece agora receber também inúmeras outras críticas em tantos outros contextos. Data de tal período boa parte de suas polémicas com Heiberg, Martensen e outros autores do contexto hegeliano dinamarquês. Alguns temas aqui recuperados por Kierkegaard são claramente de inspiração
hegeliana: o tema dos estádios é de fundo hegeliano, uma vez que tem inspiração nas etapas do caminho da consciência, o tema da subjetividade, a discussão em torno de pecado e consciência do pecado possui igualmente uma coloração hegeliana. Aquí Maria Binetti deixa categóricamente expressa sua posição ao lado de Jon Stewart:
 
A conclusão de Stewart é clara: Kierkegaard nunca objetou seriamente o pensamento hegeliano, mas o caricaturou ironicamente com a finalidade de atacar de maneira encoberta os seus contemporáneos imitadores. (BINETTI, 2015: 96- tradução minha).
 
Por fim, na quarto e último capítulo, Binetti nos apresenta outro tema profundamente merecedor de investigação, a saber, o tema da filosofia da religião póshegeliana. Aqui, com precisão, a autora aponta historicamente a data de publicação das Lições sobre a filosofia da religião, isto é, 1832. Tal obra é publicada postumamente, uma vez que Hegel morreu um ano antes. Contudo, muito mais do que apontar datas ou fazer referências históricas pontuais, o cerne da argumentação reside em apontar que Hegel trata de religião e filosofia como conceitos, ainda que fizesse entre eles diferenças. Kiekegaard recebe tal influencia em seu pensamento notadamente pelas aulas que assistiu de um hegeliano bastante famoso no contexto dinamarquês: Martensen. Ali, nas suas aulas de Teologia, aprendeu teses centrais do pensador
alemão, notadamente aquelas relacionadas com a sua filosofia da religião. Igualmente
importante aqui é a citação que Binetti faz de Karl Löwith que na sua já citada De Hegel a Nietzsche, situa Kierkegaard entre os pós-hegelianos de esquerda, inclusive aproximando-o, com certo exagero, de Marx. A autora, profunda conhecedora do contexto de origem do hegelianismo dinamarquês e do debate entre hegelianos de esquerda e de direita, move-se com
extrema competência no intuito de fazer um balanço do que seria de fato o idealismo (e o hegelianismo) de Kierkegaard. Por isso, com o intuito de nos estimular a pensar afirma, segundo os passos de Derrida, que em Kierkegaard encontramos o tema da “religião sem religião”. Ponto que poderíamos tomar como marcante e constitutivo de boa parte da tradição póshegeliana.
A título de conclusão, a autora mostra que o idealismo de Kierkegaard é, na verdade, muito próprio do seu modo de pensar. Se quisermos nos mover rigorosamente numa definição kierkegaardiana poderíamos quiçá dizer que ele é, no fundo, uma reapropriação:
“O idealismo de Kierkegaard não é o de Schlegel, nem o de Hegel, nem o de Feuerbach. É sua própria expressão, no cálculo combinado de matizes, acentos e preferências” (BINETTI, 2015: 174- tradução minha). Por isso, a autora parece ter razão quando afirma que “Kierkegaard
recolhe um idealismo pós-hegeliano que se questiona e debate a si mesmo” (BINETTI, 2015: 176- tradução minha).
Na concepção de Binetti, o idealismo kiekegaardiano é um idealismo cristão e por isso parece ser original e paradoxal notadamente dentro do contexto onde ele se situa. Desse modo, Kierkegaard avalia temas centrais tanto na herança do cristianismo como nos debates acerca do
indivíduo, ou seja, a escolha, a liberdade, etc. Fornece, para todos eles, uma nova feição tanto no campo da filosofia como da própria teologia. Assim, de modo muito curioso, a autora pode afirmar que “paradoxalmente a inspiração deste idealismo é a que refrata sua figura antiidealista” (BINETTI, 2015: 176- tradução minha). Desse modo, “Cristo expressa o
escândalo dialético da existência, o enorme paradoxo que é o modelo e o caminho de cada pobre homem singular” (BINETTI, 2015: 177- tradução minha).
Uma última palavra: a obra de Binetti possui, ao mesmo tempo, uma clareza e uma profundidade admiráveis. Nem sempre os especialistas conseguem essa virtude, o que torna o livro ainda mais recomendável em tempos de falsa intelectualidade e esnobismo infrutífero. A
bibliografia é igualmente rica e pode ser um excelente guia para os que querem aprofundar seus estudos na obra do pensador dinamarquês, bem como em Hegel e nos pós-hegelianos.
 
En Revista de Filosofia Moderna e Contemporânea
Brasília, vol 4, nº2, 2016. p. 112-115
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